Em um encontro marcado pela diversidade de crenças e pelo compromisso ético com a preservação do planeta, o GreenFaith Brasil, em parceria com a Campanha Rio Sem Óleo, a ACCAM e a Igreja Anglicana de Magé, realizou no último dia 11 de abril a oficina “Combate à Desinformação: Fé, Informação e Justiça Climática”. O evento reuniu lideranças cristãs (católicas, evangélicas e anglicanas), de matriz africana, pescadores e lideranças comunitárias para discutir o papel estratégico da espiritualidade no enfrentamento às notícias falsas que ameaçam o futuro ambiental do país.
O encontro, realizado na Igreja Anglicana de Magé, faz parte da agenda estratégica do GreenFaith no Brasil para 2026, ano em que a organização intensifica seus esforços para potencializar comunidades de fé como guardiãs da verdade em territórios vulneráveis à exploração de combustíveis fósseis e à manipulação de narrativas climáticas.

A Verdade como Compromisso com a Vida
Durante a oficina, a desinformação foi abordada não apenas como um problema técnico de redes sociais, mas como um desafio ético e espiritual profundo.
O Ministro Fábio, da Igreja Anglicana, destacou a importância de uma verdade que zele pela abundância e pela vida: “A verdade, ela tem que ter um compromisso com a vida. […] Sim, a verdade, ela tem que ter compromisso. Ela precisa zelar. Não é somente o contrário da mentira, do contrário da informação falsa. […] E verdade, sem justiça, sem misericórdia, não é verdade, é apenas uma história bem contada.”
Essa visão foi ecoada por lideranças do Candomblé, através do conceito de Ofó, a energia sagrada da fala. Lorena Froz, participante com trajetória no Candomblé, explicou a potência da palavra:
“Para a gente, dentro do candomblé, a fala é a primeira partícula para que a gente comece alguma manipulação energética para aquilo que a gente quer ao nosso favor, que a gente chama de ofó. Então, não tem como […] que eu gaste o meu ofó, que é a minha energia, a energia que vem da minha fala, ao vento, […] e principalmente com aquilo que é ruim.”

Fé e Território: O Cuidado com a “Casa Comum”
A Pastora Andrea, vinda do Acre para compartilhar a experiência das comunidades amazônicas, trouxe um relato sobre a responsabilidade espiritual diante da destruição ambiental e da poluição, como a observada na Baía de Guanabara:
“E o próprio Senhor fala, né, na sua palavra, que haverá juízo dele contra aqueles que maltratam o planeta, né? A a justiça de Deus vai ser feita também com relação às pessoas que têm maltratado esse planeta. Porque ele não fez o planeta por si só, ele fez e entregou pra gente. Então quem tá maltratando o planeta, tá maltratando pessoas, né?”

Resultados e Próximos Passos
A atividade coletiva resultou na construção de um painel colaborativo onde os participantes mapearam como suas tradições abordam a mentira e o cuidado com a Terra. Entre os principais aprendizados, destacou-se a necessidade de:
- Fortalecer o diálogo inter-religioso para desconstruir preconceitos que alimentam a intolerância e a desinformação.
- Valorizar os saberes tradicionais como ferramentas de resistência contra a “história única” imposta por interesses econômicos.
- Capacitar lideranças para que sejam agentes de comunicação responsável em seus territórios.
Para Julia Rossi, coordenadora do GreenFaith Brasil, o evento em Magé reafirma que a fé é uma das ferramentas mais potentes para transformar a realidade. A oficina de Magé é a primeira de uma série de encontros nacionais que percorrerão cidades como Recife, Rio Branco, São Luís e São Paulo ao longo de 2026, fortalecendo uma rede inter-religiosa comprometida com a justiça climática e a integridade da informação.
