Documento convoca lideranças e comunidades de fé a transformar o enfrentamento à desinformação climática em compromisso público
Lideranças evangélicas de diferentes locais do país se reuniram na sexta-feira (28), em São Paulo, para discutir o papel das comunidades de fé no enfrentamento à desinformação climática. Realizado pelo GreenFaith Brasil e pelo Movimento Negro Evangélico (MNE), o Seminário Fé, Justiça Climática e Desinformação reuniu mais de 30 participantes no Instituto Peregum e marcou o lançamento do manifesto Fé, Justiça Climática e Desinformação: Compromisso cristão com a democracia e cidades mais justas.
O documento propõe que o enfrentamento à desinformação climática seja assumido como um compromisso público pelas lideranças e comunidades de fé. A iniciativa busca fortalecer a capacidade de igrejas e organizações evangélicas para reconhecer conteúdos enganosos, dialogar sobre ciência e mudanças climáticas e ampliar a circulação de informações qualificadas em seus territórios.
“Desde a COP30, temos percebido a importância de dialogar com o meio religioso e com pessoas de diferentes territórios sobre o que é desinformação climática, como diferenciá-la de uma informação falsa e, principalmente, como identificar esses conteúdos e evitar que sejam disseminados. Estamos vivendo um ano eleitoral, então é fundamental disputar essas narrativas. Temos identificado também o poder de grandes empresas, das Big Techs e das petroleiras na promoção da desinformação climática. Por isso, essas parcerias são tão importantes para ocupar esse espaço, fortalecer o pensamento crítico e impedir que a desinformação ganhe ainda mais espaço na internet. Queremos que essa discussão chegue de maneira leve e alcance diferentes gerações e pessoas de diferentes religiosidades”, afirmou Júlia Rossi, coordenadora do Green Faith no Brasil.
Ao longo do dia, as lideranças participaram de atividades voltadas à compreensão da desinformação climática e às formas de enfrentá-la no cotidiano das comunidades. Pela manhã, a programação incluiu uma oficina sobre como identificar conteúdos de desinformação climática, conduzida por Luis Henrique Vieira, editor-executivo do Coletivo Bereia.
Na parte da tarde, o seminário aprofundou o debate sobre a circulação de informações falsas e enganosas relacionadas ao clima. O MNE apresentou dados sobre desinformação climática no Brasil e no mundo, enquanto Fernanda da Costa, do Instituto Imazon contribuiu com pesquisas e dados recentes sobre o contexto ambiental e climático brasileiro. O encontro terminou com um debate aberto e espaço para perguntas dos participantes.

“Ao longo do dia, compartilhamos experiências, refletimos sobre os impactos da crise climática e sobre o papel da igreja diante dessas questões. Mais do que falar sobre clima, o seminário foi um convite para que igrejas locais que estão começando a trabalhar com essa temática, ou que ainda não a conheciam, possam se envolver cada vez mais e compreender essa agenda como parte de sua missão. Enfrentar a crise climática também é uma questão de fé, de justiça e de responsabilidade com o próximo e com toda a criação de Deus”, afirmou Gabriel Miranda, pastor e assistente de Mobilização Climática do Programa Martin Luther King do MNE.
A relação entre fé, justiça e verdade também esteve presente nas reflexões do pastor e educador José Maluá, da Igreja Batista d’Água Branca, convidado para o seminário.“Como pastor e como comunidade de fé, é imprescindível conversarmos sobre como cuidamos da criação, do meio ambiente e da natureza. A Bíblia nos lembra, em Romanos 8, que existe um grito e uma dor da criação que esperam pela manifestação dos filhos de Deus em justiça, amor e cuidado. A justiça está profundamente ligada à verdade. Buscar a verdade é também um caminho para promovermos justiça ambiental e proteger a vida e o meio ambiente”, afirmou.
O manifesto lançado durante o seminário amplia essa proposta ao defender que as comunidades de fé tenham papel ativo na construção de uma cultura de informação, diálogo e responsabilidade diante da crise climática. O documento também chama atenção para a necessidade de uma transição energética justa, com redução da dependência dos combustíveis fósseis e proteção dos trabalhadores, comunidades e territórios afetados.
Fé, informação e ação
O seminário também integra a campanha de lançamento da cartilha Nossa Fé contra a Crise Climática, produzida pelo GreenFaith a partir de um ciclo de formações e encontros com comunidades de fé do Rio de Janeiro, Pernambuco e Acre realizados no primeiro semestre de 2026.
A publicação reúne ferramentas para ajudar lideranças e comunidades a identificar, questionar e responder a conteúdos enganosos sobre a crise climática. O material articula informações científicas, valores cristãos e práticas comunitárias, aproximando o debate climático da realidade cotidiana das igrejas.
A cartilha Nossa Fé contra a Crise Climática está disponível gratuitamente no site do GreenFaith.